São Coisas Nossas

18/08/2004 14:12
Ary Barroso

Ah, como eu amo as músicas desse grande compositor e pianista... Vou escrever algumas letras aqui, mas volto em breve pra colocar os detalhes das gravações, pois agora não dá ;-)

Camisa Amarela
(Ary Barroso, 1939)

Encontrei o meu pedaço na avenida de camisa amarela
Cantando a Florisbela, oi
A Florisbela
Convideio-o a voltar pra casa em minha companhia
Exibiu-me um sorriso de ironia
E desapareceu no turbilhão da galeria
Não estava nada bom
O meu pedaço, na verdade, estava bem mamado
Bem chumbado, atravessado
Foi por aí cambaleando
Se acabando num cordão
Com o reco-reco na mão
Mais tarde, o encontrei num café
Zurrapa do Largo da Lapa
Folião de raça
Bebendo o quinto copo de cachaça
Isto não é chalaça...

Voltou às sete horas da manhã
Mas só na quarta-feira
Cantando a Jardineira, oi
A Jardineira
Me pediu, ainda zonzo, um copo d'água com bicarbonato
O meu pedaço estava ruim de fato
Pois caiu na cama e não tirou nem o sapato
Roncou uma semana
Despertou mal-humorado
Quis brigar comigo
Que perigo!
Mas não ligo
O meu pedaço me domina, me fascina, ele é o tal
Por isso não levo a mal
Pegou a camisa
A camisa amarela
Botou fogo nela
Gosto dele assim
Passada a brincadeira
Ele é pra mim
(Meu Senhor do Bonfim!)

Pra Machucar Meu Coração
(Ary Barroso, 1943

Tá fazendo um ano e meio, amor
Que o nosso lar desmoronou
Meu sabiá, meu violão
E uma cruel desilusão
Foi tudo que ficou
Ficou
Pra machucar meu coração

Quem sabe não foi bem melhor assim
Melhor pra você e melhor pra mim
A vida é uma escola
Onde a gente precisa aprender
A ciência de viver pra não sofrer.

Maria
(Ary Barroso/Luiz Peixoto, 1932)

Maria
O teu nome principia
Na palma de minha mão
E cabe bem direitinho
Dentro do meu coração, Maria
Maria, de olhos claros, cor do dia
Como os de Nosso Senhor
Eu por vê-los tão de perto
Fiquei ceguinho de amor, Maria

No dia, minha querida
Em que juntinhos da vida
Nós dois nos quisermos bem
A noite em nosso cantinho
Hei de chamar-te baixinho
Não hás de ouvir mais ninguém, Maria
Maria, era o nome que eu dizia
Quando aprendi a falar
Da vozinha, coitadinha
Que eu não canso de chorar, Maria

E quando eu morar contigo
Tu hás de ver que perigo
Que isso vai ser, ai, meu Deus!
Vai nascer todos os dias
Uma porção de Marias
De olhinhos da cor dos teus, Maria
Maria...

No Rancho Fundo
(Ary Barroso/Lamartine Babo, 1931)

No rancho fundo
Bem pra lá do fim do mundo
Onde a dor e a saudade
Contam coisas da cidade
No rancho fundo
De olhar triste e profundo
Um moreno conta as mágoas
Tendo os olhos rasos d'água
Pobre moreno
Que de tarde no sereno
Espera a lua no terreiro
Tendo o cigarro por companheiro
Sem um aceno
Ele pega da viola
E a lua por esmola
Vem pro quintal desse moreno
No rancho fundo
Bem pra lá do fim do mundo
Nunca mais houve alegria
Nem de noite nem de dia
Os arvoredos já não contam mais segredos
E a última palmeira já morreu na cordilheira
Os passarinhos internaram-se nos ninhos
De tão triste esta tristeza
Enche de trevas a natureza
Tudo por quê? Só por causa do moreno
Que era grande, hoje é pequeno
Para uma casa de sapê

Se Deus soubesse
Da tristeza lá serra
Mandaria lá pra cima
Todo o amor que há na Terra
Porque o moreno vive louco de saudade
Só por causa do veneno
Das mulheres da cidade
Ele que era o cantor da primavera
Que até fez do rancho fundo
O céu maior que tem no mundo
O sol queimando
Se uma flor lá desabrocha
A montanha vai gelando lembrando o aroma da cabrocha.

Tu
(Ary Barroso, 1934)

Teu olhar é um sonho azul
Teu sorriso, uma promessa louca
Teus lábios, duas jóias de coral
No engaste sensual de tua boca

O mais lindo luar, tu
A grandeza do mar, tu
Só te quero a ti
Só te vejo a ti
Só palpito por ti
És minha vida, querida!

enviada por Roberta






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